domingo, 12 de fevereiro de 2017

Minha experiência pessoal na criação do Travessias

Quando surgiu a oportunidade de participar do GameJam que levaria à criação de um jogo de RPG, no evento "RPG no CCJ" do ano passado, eu não pensei duas vezes. Eu já havia criado mini cenários e aventuras para sistemas já bem estabelecidos, mas minha experiência com game design era zero. Ainda mais uma atividade coordenada pelo Jorge Valpaços da Lampião, um cara realmente comprometido com o aspecto social do jogo.




Tem muito "game designer" nacional que eu considero pessoas horríveis. Não vou com a cara. Tem os teóricos do RPG, tem os caras experientes em mestrar o mesmo jogo a mais de 20 anos e que não aceitam opiniões diferentes das deles, tem aqueles que fazem só pela fama, tem aqueles cheios de preconceitos, etc., mas felizmente tem umas poucas pessoas que vale a pena nesse universo escuro e sombrio que é o RPG Indie no Brasil. O Jorge Valpaços é uma dessas pessoas. Assim, eu fui para a atividade sem saber muito bem o que esperar, mas com a mente aberta e cheia de esperanças. E assim começamos aquilo que era um jogo para a criação de um jogo.



E rapidamente, todos aqueles temas espinhosos que eu costumo abordar aqui no blog e também no Facebook estavam surgindo. Pessoas que não se conheciam, incomodadas com coisas que já haviam prejudicado sua diversão em mesas de RPG, estavam dispostas a fazer um jogo cuja mecânica abordasse isso. Falta de comprometimento com a história, falta de espírito de equipe, competitividade entre jogadores, apego ao personagem, dificuldade em se criar um grupo pensando junto, dificuldade em fazer com que todos participem da criação da história, carência de jogos que invistam na criação de mestres/narradores. Tantas coisas que poderiam ser abordadas num jogo de forma muito natural.  Naquela sala do CCJ, aquele grupo de pessoas colocou suas mentes e corações em um projeto simples, cujo resultado eu me orgulho.


O Travessias tem para si tantas bandeiras, que acabou sendo um jogo que eu considero altamente ambicioso. Eu já falei sobre esses conceitos num artigo anterior. Eu não conheço muitos jogos indie, mas nos jogos de grande circulação, é muito raro tratar desses temas. Vários jogos mais recentes tem sim essa preocupação, mas ela é textual, é teórica. São ideias que se ignoradas pelo grupo, ainda permitem que o jogo se desenrole e seja concluído. Pode até causar desconforto, pode até causar problemas, mas o jogo anda por si só e no final a história da campanha não é prejudicada, mesmo que os jogadores sejam afetados de forma negativa. No Travessias, a própria mecânica do jogo obriga que se tomem certas providências. Obriga que os jogadores estejam comprometidos com esses conceitos. E isso me deixou muito feliz. Isso me marcou como pessoa, e eu subi um nível como RPGista. Um ou mais níveis, para dizer a verdade.

No final, não éramos mais os mesmos. Todos nós saímos de lá TOCADOS. Eu estava confusa, assustada, meio perdida, mas diferente. E eu aceitei essa diferença. E a partir daquele momento, comecei a desbravar os mistérios da floresta escura cheia de portais, rumo ao desconhecido. Travessias é esse tipo de jogo capaz de causar mudanças internas sutis mas importantes na forma como jogamos e encaramos a experiência em volta da mesa de jogo, na nossa postura como parte de um grupo de jogo. Travessias é um jogo com conceitos e experiências que podem ser facilmente aplicados a muitos outros RPGs, mesmo que você não mexa em nada na mecânica deles. Desde que você, como eu, seja TOCADO pelos conceitos do jogo, passará a ver o RPG de uma forma diferente.

A versão física do livro Travessias está em financiamento coletivo pelo Catarse, até o dia 08/04/2017: https://www.catarse.me/travessias

A versão digital do Travessias é gratuita. Ela pode ser adquiria no site da Aster Editora: http://astereditora.com.br/loja/produto/travessias-ebook/





2 comentários:

  1. Apoiei, parece muito bom e interessante. Há planos para mesas? Podíamos combinar de juntar alguns interessados.

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  2. Jogo narrativo é rpg?? Eu não curto jogos narrativos porque ele são curtos de no máximo uma sessão, ou seja é impossível de se jogar uma campanha!! Podemos classificar jogos narrativos como rpg??

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